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Retrospectiva sobre Paul Strand, um fotógrafo de referência do século XX

Retrospectiva sobre Paul Strand, um fotógrafo de referência do século XX

By In La Muestra, Portada Todos On 12 March, 2015


Paul Strand (Nova Iorque, 1890-Orgeval, França, 1976), considerado um dos fotógrafos mais importantes do século XX, é apresentado na sala de exposições da FUNDACIÓN MAPFRE de Bárbara de Braganza, Madri, de 3 de junho a 23 de agosto. Na exposição, realiza-se um percurso cronológico pelas seis décadas que abrangem a carreira do fotógrafo (1910-1960). A mostra reúne um conjunto de mais de 200 obras procedentes de importantes coleções de museus e particulares, dentre as quais se destaca a do Philadelphia Museum of Art, que possui os fundos mais completos da obra de Strand.

La Muestra: Paul Strand - FUNDACIÓN MAPFRE

O Sr. Bennett, West River Valley, Vermont, 1944. Coleções FUNDACIÓN MAPFRE. © Aperture Foundation Inc., Paul Strand Archive.

Com esta exposição, a FUNDACIÓN MAPFRE apresenta uma vez mais um dos grandes mestres da fotografia, cuja obra, entretanto, ainda é pouco conhecida na Espanha. Além disso, a mostra tem o interesse de se transformar em um olhar em direção às nossas próprias coleções, já que desde 2011 a FUNDACIÓN MAPFRE possui mais de uma centena de fotografias, em sua maioria vintages, de Paul Strand, e é a instituição europeia que mantém em sua coleção o maior e mais variado conjunto de obras do fotógrafo.

Nascido em Nova Iorque, Strand começou estudando com o fotógrafo de temática social Lewis Hine na Ethical Culture School de Nova Iorque, entre 1907 e 1909, e posteriormente começou uma estreita amizade com Alfred Stieglitz, também fotógrafo e pioneiro na introdução da arte moderna nos Estados Unidos. Strand conseguiu fundir estas duas poderosas influências. A partir de então, explorou o potencial da fotografia como instrumento de superação da visão humana através de retratos íntimos e detalhados, e da captação de matizes em formas mecânicas e naturais. Desde a década de 1930, em suas diversas viagens ao sudoeste dos Estados Unidos, Canadá e México, desenvolveu projetos centrados em comunidades específicas, estudos de povos através de suas pessoas e dos elementos culturais que os identificam. Strand continuou desenvolvendo este tipo de trabalhos baseados na viagem -e no conhecimento derivado dela- durante o resto de sua carreira. O fotógrafo examinou as possibilidades da câmera mais a fundo que qualquer outro artista antes de 1920.

Do pictorialismo à modernidade

A exposição começa com as primeiras obras de Strand, realizadas na década de 1910, e nas quais se aprecia o seu rápido domínio do estilo pictorialista predominante. Esta seção também apresenta a sua evolução em direção às inovadoras fotografias de 1915-17, obras que exploram novas temáticas da paisagem urbana de Nova Iorque e ideias estéticas inovadoras que o aproximam da abstração. Estas novas orientações na fotografia de Strand evidenciam o seu crescente interesse tanto pela pintura contemporânea -especialmente pelo cubismo e pela obra dos artistas e fotógrafos americanos encabeçados por Alfred Stieglitz- como pelo descobrimento da fotografia como um meio essencial para dar expressão à modernidade.

A obra de Strand deste período também inclui cândidos e avassaladores retratos em primeiro plano de pessoas que observava na rua -os primeiros deste tipo-, bem como outras imagens que refletem o seu fascínio pelo ritmo de vida e pela mudança de escala na grande cidade moderna. Os retratos realizados nas ruas por Strand em 1916 são possivelmente tão inovadores como seus experimentos com a abstração. Nenhum fotógrafo antes de Strand havia tratado de transformar as pessoas comuns em um tema tão monumental.

Do círculo de Stieglitz ao retrato da comunidade

La Muestra: Paul Strand - FUNDACIÓN MAPFRE

Rebecca, Nova Iorque, 1922. Philadelphia Museum of Art, Filadélfia. The Paul Strand Collection, adquirida com fundos proporcionados pelo Sr. e a Sra. Robert A. Hauslohner (através de intercâmbio). © Aperture Foundation Inc., Paul Strand Archive.

Durante os anos vinte -um período frequentemente denominado “a era das máquinas”-, Strand deixou-se cativar pela capacidade da fotografia de captar os fascinantes detalhes de peças mecânicas, ao mesmo tempo em que as suas ideias sobre a natureza do retrato começaram a se ampliar de um modo considerável. Estas novas e variadas inquietudes podem ser apreciadas na beleza sensual dos primeiros planos de sua esposa, e em inovadores e profundos estudos sobre a sua nova câmera cinematográfica. Strand estendeu estas ideias a uma série de fotografias realizadas em lugares fora de Nova Iorque, tais como o Maine, onde temas aparentemente comuns, como um tronco, uma pedra ou a simples vegetação, deram como resultado imagens surpreendentemente inovadoras.

Durante as décadas seguintes, Strand viajou incessantemente, motivado pelo seu interesse em ampliar o papel da fotografia. A segunda seção da exposição apresenta a sua pesquisa sobre a capacidade da câmera de ilustrar a passagem do tempo e capturar as qualidades específicas de um lugar, como o Novo México, através de seus edifícios abandonados. Além disso, contém a etapa na qual Strand viveu no México (1932-1934) e mostra a sua volta em direção a um tema central: o retrato de indivíduos anônimos. Este período no exterior influenciou-o profundamente, intensificando o seu compromisso com a política de esquerda. Muitas das obras do momento mostram uma profunda empatia com o lugar e suas pessoas.

Além disso, nesta seção é apresentado um dos filmes mais significativos de Strand: Manhatta (1921), o primeiro que realiza, e uma importante colaboração com o pintor e fotógrafo Charles Sheeler. Considera-se este breve “documentário cênico” a primeira fita vanguardista norte-americana. Retrata a vibrante energia da cidade de Nova Iorque, onde ocorre a justaposição do drama humano das ruas com perspectivas tomadas a partir de altos edifícios que se tornam abstratas em vista de pássaro, e cenas do ferry e do porto, tudo isso acompanhado pela poesia de Walt Whitman.

 

La Muestra: Paul Strand - FUNDACIÓN MAPFRE

Igreja, Ranchos de Taos, Novo México, 1930. Philadelphia Museum of Art, Filadélfia. The Paul Strand Collection, adquirida com o Fundo Annenberg para Grandes Aquisições. © Aperture Foundation Inc., Paul Strand Archive.

 

Nesta colaboração, a intenção dos fotógrafos foi aplicar seus singulares conhecimentos, adquiridos graças aos seus experimentos com a imagem fixa, à imagem em movimento -com a finalidade de registrar, através de uma seleção consciente e de preenchimento dos espaços, esses elementos que expressam o espírito de Nova Iorque, seu poder, beleza e movimento.

Esboços da história e da modernidade

Na década de 1940, os livros seriam transformados na forma preferida de Strand para mostrar a sua obra, pois lhe permitiam combinar a capacidade expressiva da fotografia e a narrativa do cinema. O livro foi para Strand uma etapa que oferecia uma colaboração artística a escala muito menor que o cinema, mas que poderia chegar a um público igualmente amplo. Em cada um de seus fotolivros colaborava com um escritor que redigia ou editava os textos combinados com suas fotografias. Strand tinha expectativas muito altas com relação à reprodução de suas fotografias, e os livros eram publicados em pequenas edições a um custo muito alto.

A exposição destaca principalmente três destes projetos: Nova Inglaterra (1950), Luzzara (1953) e Gana (1963). Não obstante, também estão presentes fotografias da França (1952), Egito (1959), Romênia (1960) e Marrocos (1962).

Em suas fotografias da Nova Inglaterra, Strand utiliza a história cultural do lugar para transmitir uma ideia do passado e do presente que sugira uma luta incessante em prol da democracia e da liberdade individual. Este trabalho, materializado na publicação de Time in New England [Tempo na Nova Inglaterra] reflete o seu compromisso político e foi publicado em 1950, ano no qual Strand se muda para a França motivado pelo crescente sentimento anticomunista nos EUA Encontramos inquietudes similares em seu projeto realizado na França e publicado em
1952 em La France de profil [O perfil da França].

Em Luzzara (Itália) dirigiu a sua atenção às realidades cotidianas de um povo do norte que se recuperava das misérias da guerra e do fascismo. Este trabalho se concentra em imagens dos moradores locais e satisfaz a sua velha aspiração de criar uma importante obra de arte em torno a uma única comunidade. As fotografias deram lugar ao livro Un Paese: Portrait of an Italian Village [Um povoado: Retrato de um povoado italiano] (1955), acompanhado de um texto de Cesare Zavatini. Un Paese é, de um modo simples mas profundo, um livro sobre a vida cotidiana.

Em 1963, Strand viajou para Gana a convite de Kwame Nkrumah, primeiro presidente após o final do domínio britânico. Fascinado pela incipiente democracia do país, Strand estava entusiasmado com a oportunidade de fotografar um lugar que experimentava, em alta velocidade, uma relevante mudança política e grande modernização. Apreciava os esforços de uma nação de recente independência por traçar um futuro que convivia lado a lado com os aspectos tradicionais da cultura própria. Neste projeto, o retrato teve uma presença essencial. Suas fotografias do país foram publicadas em 1976 em Gana: An African Portrait [Gana: Um retrato africano].

Em seus últimos anos, Strand se centra cada vez mais em sua casa de Orgeval, nos arredores de Paris, focando frequentemente a sua atenção nos inumeráveis descobrimentos que fazia dentro do seu próprio jardim e que, em muitas ocasiões, são um reflexo de sua obra anterior.

 

La Muestra: Paul Strand - FUNDACIÓN MAPFRE

A família, Luzzara (os Lusetti), 1953 (negativo), meados-final da década de 1960 (cópia). Philadelphia Museum of Art, Filadélfia. The Paul Strand Collection, adquirida com fundos proporcionados por Lois G. Brodsky e Julian A. Brodsky. © Aperture Foundation Inc., Paul Strand Archive.

 

A carreira de Paul Strand foi caracterizada por uma marcada motivação social e pelo compromisso político refletidos em sua vontade constante por retratar o conflito humano. A mostra analisa minuciosamente esta faceta de sua obra, que o fotógrafo assumiu como uma parte essencial de sua responsabilidade como artista.

Un hermoso y complejo retrato de la modernidad

Peter Barberie – Representante da exposição

Peter Barberie

Peter Barberie é Brodsky Curator of Photographs do Alfred Stieglitz Center no Museu de Arte de Filadélfia. Em 2014, organizou a exposição de Paul Strand denominada Master of Modern Photography, uma retrospectiva pormenorizada da fotografia e dos filmes de Strand. Publicou, entre outros, Paul Strand: Master of Modern Photography (2014), Zoe Strauss: Ten Years (2012), Looking at Atget (2005) e Dreaming in Black and White: Photography at the Julien Levy Gallery (em conjunto com Katherine Ware, 2006). É doutor em História da Fotografia e Arte Moderna pela Universidade de Princeton.

Paul Strand é um dos grandes personagens da arte do século XX. Seus esforços revolucionários em tirar fotografias em forma de retratos nas ruas, bem como suas experimentações com o abstrato, ambos realizados ao redor de 1916, abriram novos caminhos para a fotografia modernista. Apesar disso, Strand é tão incrível que hoje poucas pessoas conhecem o alcance de tudo o que ele realizou e reconhecem apenas poucas fotografias de culto realizadas por esse artista. Quando, em 2005, o Museu de Arte de Filadélfia adquiriu o conjunto principal do arquivo de Paul Strand (cerca de 3.000 impressões mestres de fotografias tiradas em cada fase da sua extensa carreira profissional), achei que tinha chegado a hora de fazer uma revisão completa e detalhada do trabalho de toda uma vida.

Faz tempo que críticos norte-americanos decidiram que as famosas experimentações realizadas por Strand a partir de 1916 representavam seus êxitos mais relevantes, por isso, ignoraram as próximas décadas, considerando que não tinham tanta importância. Essa atitude se deve, em parte, à simpatia demonstrada pelo artista pela política comunista ao longo da sua vida e também à decisão de sair dos Estados Unidos e mudar para a França em 1950, praticamente no auge da Guerra Fria. Após a mudança, Strand continuou comprometido com a arte com intenso fundo social, até mesmo quando a abstração passou a ser a estética que dominava a arte. Apesar disso, suas ambições relativas à fotografia e ao cinema sempre foram imensas e ele não deu atenção à divisão entre as experimentações modernistas e empatia social, censurada por outros em sua obra. Os dois elementos estão presentes, do começo ao fim, e Strand os empregou para forjar uma exposição ímpar do século XX.

No começo da década de 30, Strand desenvolveu uma afinidade pelas séries de fotografias que realizou durante suas andanças pelo sudoeste dos Estados Unidos e pelo México. Evidentemente, ele era atraído pela profundeza da observação que uma série permitia. No México, se apaixonou pela cinematografia, o que lhe permitia uma estrutura narrativa mais consistente ainda, prometendo uma audiência muito mais ampla do que a fotografia poderia oferecer-lhe. Durante aproximadamente dez anos, trabalhou em documentários sociais, incluindo sua obra prima, Native Land. No entanto, a cinematografia é um processo de colaboração e, apesar de Strand ter idealizado a colaboração artística ao longo da sua vida, esta não era sua especialidade. Por isso, na década dos 40, voltou à fotografia, adotando os livros de fotografias como um meio para criar outro tipo de narração ampliada que também lhe permitia reunir palavras e imagens. De 1950 até falecer, em 1976, produziu seis livros desse tipo sobre localidades que tinha visitado e pesquisado detalhadamente durante semanas ou meses. Para Strand, a pequena cidade de Luzzara (Itália) em 1953, as remotas Inner Hebrides (Escócia), em 1956, e a nação africana de Gana, em 1964, eram tão modernas quanto Paris ou Nova Iorque, porque entendeu que a modernidade abre espaço de forma diferente conforme o lugar. Por isso, queria representar essas diferenças em suas fotografias, expondo a história dos lugares, dos objetos e das pessoas.

Espero que esta exposição revele a grande potência e sutileza da obra de Strand, desde suas fotografias inovadoras na primeira década do século XX até seus últimos projetos. Era obstinado quanto às suas ideias e exigente em relação à sua obra, mas, ao mesmo tempo, tinha uma paciência imensa. Seu olhar atento e sem pressa permitiu que colhesse uma fotografia bonita e complexa da modernidade.


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